O estado da lâmina: defeitos e enganos
Quase nenhuma lâmina antiga está totalmente limpa: quem olha de perto encontra poros, aberturas, marcas de combate ou o rasto de séculos de polimentos. A pergunta útil não é se há defeitos, mas quais são, onde estão e quanto pesam para o uso e para a contemplação. Este tema ordena-os pela origem —a têmpera, a forja, o desgaste, o fogo e o uso—, explica os acrescentos que os tapam e como destapá-los, e termina com uma tabela de gravidade.
Porque é que toda a lâmina tem kizu
Em japonês, qualquer defeito físico da lâmina é um kizu (疵). Quase todos nascem na forja ou na vida da espada: escória que a dobragem não chegou a expulsar, uma dobra que não soldou por completo, um pequeno erro na têmpera, um golpe em combate, a ferrugem e, sobretudo, séculos de polimentos. Por isso quase toda a lâmina que parece limpa de longe mostra alguma coisa com boa luz.
O que importa é a gravidade. Há defeitos que põem a lâmina em perigo —uma fissura na têmpera pode parti-la ao cortar—, outros que apenas enfeiam, e outros que nem contam como defeito ou que até somam. O critério, além disso, mudou: enquanto a espada foi uma arma, pesava sobretudo a falha funcional; hoje, julgada como obra de arte, pesa também o que estraga a vista. Um mesmo kizu avalia-se de forma diferente segundo o tamanho, o sítio —no fio temperado ou no ji, na metade alta ou junto à espiga— e a época e a escola da lâmina.
O mapa situa os mais comuns. As secções seguintes agrupam-nos pela origem, e a última ordena-os numa tabela de gravidade.
Os defeitos da têmpera
Os mais temidos estão na faixa temperada do fio, porque é a parte que trabalha. São fissuras finas, que se procuram com boa luz e a lâmina inclinada, e que não se devem confundir com uma abertura de forja que caia dentro do hamon.
| Defeito | O que é | Quanto pesa |
|---|---|---|
| hagire (刃切れ) | Uma fissura na têmpera, quase perpendicular ao fio. | A mais temida: a lâmina pode partir-se por ali ao cortar. Fatal para o uso; para a contemplação pesa menos. |
| karasuguchi (烏口) | Uma fissura do mesmo tipo dentro da ponta (kissaki). | Grave: a ponta pode quebrar ao estocar. |
| hagarami (刃搦み) | Uma fissura oblíqua, ou uma abertura de forja, que chega ao fio. | Pequena, quase não conta. Na metade alta da lâmina, a que corta, ameaça uma lasca; perto da espiga, muito menos. |
| tsuki-no-wa (月の輪) | Um hagarami em arco de meia-lua dentro da ponta. | Como o hagarami. |
| nioi-gire (匂切れ) | Um troço em que a linha da têmpera se interrompe por falta de nioi. | Sobretudo visual; um bom polidor disfarça-o. |
| hajimi (刃染み) | Uma zona da têmpera baça e esbranquiçada, sem brilho, por carbono mal distribuído ou têmpera fraca. | Visual; se o desgaste a estende a todo o fio, o valor cai muito. |
| yaki-kuzure (焼崩れ) | Um troço em que a têmpera se desfaz e perde o contorno. | Visual se for pequeno. |
| Ponta sem têmpera | O bōshi desapareceu, por uma quebra ou pelos polimentos. | A lâmina é tida por defeituosa: a ponta não aguenta. Em lâminas muito antigas tolera-se mais. |
Estas fissuras são muitas vezes mais finas do que um cabelo, e nem sempre nascem de uma falha da têmpera: uma pancada forte no dorso da lâmina também pode abrir uma. Em rigor, o hagire não é o defeito que mais prejudica a lâmina como obra, mas é o que colecionadores e avaliadores mais rejeitam; segundo a prática das oficinas, uma lâmina com hagire não passa a Tokubetsu Hozon. Outra coisa são as fissuras finas da têmpera que não chegam a hagire: já se viram lâminas que as têm e que ainda assim foram aprovadas como Jūyō.
Os critérios de exame do NBTHK deixam de fora as lâminas com defeitos graves (ver Papéis do NBTHK). Sobre a ponta e a sua têmpera, ver Anatomia da katana.
Os defeitos de forja
A lâmina forja-se dobrando o aço uma e outra vez (ver Forja e construção). Cada dobra é uma soldadura, e quando uma não pega por completo fica no aço um defeito que o polimento acaba por destapar.
- fukure (膨れ): uma bolha de ar presa numa dobra mal soldada. Pequena e longe do fio não afeta o uso, mas tirá-la a polir é quase impossível, e se o polimento a abre fica a fukure-yabure (ふくれ破れ), uma cova que se vê de longe.
- kitae-ware (鍛え割れ): uma abertura da dobragem, quase sempre ao longo da lâmina (tate-ware, 竪割れ); se corre pelo dorso, é um mune-ware (棟割れ). É o defeito que mais se vê e, se não for grande, dos que menos pesam no uso. Não se ver nenhuma, por outro lado, não garante que o aço seja bom.
- masa-ware (柾割れ): nas lâminas de grão reto (masame), como as da antiga escola de Yamato, uma abertura que segue o grão é quase inevitável e não conta como defeito; em alguns ferreiros é até um traço próprio.
- shinae (撓え): marcas transversais, como pequenas fissuras ou rugas, que atravessam a lâmina. Associam-se a dobrar e endireitar a lâmina ou a um aço fraco. As superficiais, de endireitar, às vezes saem com o polimento; as de forja, não. Pesa mais do que uma fukure ou um kitae-ware, porque avisa de que a lâmina pode dobrar ou partir por ali. Há polidores que distinguem dela a mukade-shinae, a «shinae de centopeia»: rugas finas e superficiais deixadas ao dobrar e endireitar a lâmina, que não contam como defeito e desaparecem com os polimentos.
- uchikomi (打込み) e ishike (石気), poros finos atribuídos ao martelo ou à bigorna, e sumigomori (炭籠り), carvão que ficou preso na pele de aço. Pequenos, não têm importância prática.
O desgaste: tsukare
A lâmina tem por fora uma pele de aço duro, o kawagane (皮鉄), e por dentro uma alma mais macia, o shingane (心鉄). Cada polimento leva um pouco de pele. Depois de séculos de polimentos a pele adelgaça, a alma pode aflorar e o ji fica áspero ou manchado: é o tsukare (疲れ), a lâmina «cansada». A junção entre pele e alma que aflora chama-se ji-are (地荒れ), e a alma à vista pode parecer um utsuri esbranquiçado que não o é (tsukare-utsuri, 疲れ映り), o que baixa muito o seu valor como obra.
Nem todo o shingane visível é desgaste: em algumas escolas, como os Rai de Yamashiro ou os Aoe de Bitchū, a alma à vista tem-se por um traço próprio. Quanto pesa hoje na avaliação discute-se em Forja e construção.
O desgaste mede-se pela espiga, que nunca se pule e conserva a espessura (kasane) com que saiu da forja. Se a lâmina, junto ao machi, é claramente mais fina do que a espiga, ou se o fio recuou em relação ao degrau do machi, perdeu muito aço. A ponta, polida mais do que o resto, está entre as primeiras zonas a perder a têmpera. E nos tantō a ponta adelgaça antes do resto até se curvar para dentro (uchizori): um tantō sem essa curva costuma estar mais são.
O desgaste muda também a forma. Como os polimentos levam sobretudo aço do gume temperado, a curvatura diminui e a que resta nota-se mais perto da base (koshizori); a ponta arredonda-se, o yokote vai descendo em direção à espiga e o ponto mais grosso da lâmina desloca-se para o machi, que pode chegar a desaparecer. Um polimento que tira muito aço de uma vez aplana ainda a têmpera, que fica mais calma, e pode mudar o encaixe da lâmina na bainha. Duas lâminas irmãs mostram o que isso significa: com os polimentos, uma tinha perdido 138 g e a outra 270 g, quase um terço do seu peso, com a pele de aço esgotada em alguns pontos.
Fogo e retêmpera
Uma lâmina que passou por um incêndio é um yakemi (焼身): o calor desfaz a têmpera e o aço volta a ficar macio, a superfície enegrece ou corrói-se, aparece o desenho da forja e o hamon desaparece ou deixa manchas soltas. Até ao período Edo, uma lâmina queimada que ainda servia voltava a ser temperada sem hesitações: é o saiha (再刃), também chamado yaki-naoshi (焼き直し). Hoje um saiha perde quase todo o valor como obra de arte, e o NBTHK só o admite em casos muito concretos (ver Papéis do NBTHK).
Estas são as pistas de uma retêmpera:
- uma espiga com grânulos, poros ou aspeto de fundido, porque também passou pelo fogo;
- yaki-otoshi (焼き落とし): a têmpera não arranca no machi mas um pouco acima, porque ao retemperar se evita aquecer a espiga;
- mizukage (水影): uma sombra oblíqua, parecida com um utsuri, onde começa a têmpera, no limite do que entrou na água;
- um equilíbrio estranho entre largura, curvatura e hamon, ou um hamon que não se parece com o do ferreiro que assina.
Nenhuma basta sozinha. O mizukage aparece também em obra original de alguns ferreiros do shintō —Horikawa Kunihiro, o primeiro Tadayoshi, o primeiro Kunikage—, pelas diferenças de temperatura da água junto ao machi, e o próprio NBTHK pede que se decida caso a caso se é original ou de uma retêmpera. O yaki-otoshi é igualmente um traço original em lâminas de Heian e em alguns ferreiros de Kyūshū, como Bungo Yukihira. O que denuncia um saiha é a soma dos sinais.
Às vezes só se retempera a ponta danificada: é o yakitsugi-bōshi (焼継ぎ帽子), mais raro do que um saiha completo. A têmpera da ponta nunca liga bem com a da lâmina: na junção o nioiguchi enfraquece e pode ver-se outra vez um mizukage. O troço entre as duas têmperas costuma ficar também queimado, e o polimento encarrega-se de o disfarçar.
Duas lâminas célebres mostram os dois destinos. O Honebami Tōshirō (骨喰藤四郎), obra de Awataguchi Yoshimitsu e Bem Cultural Importante, queimou-se no grande incêndio de Meireki (1657) e foi retemperado pelo terceiro Echizen Yasutsugu; pertence ao santuário Toyokuni e está em depósito no Museu Nacional de Quioto. O Shokudaikiri Mitsutada (燭台切光忠) queimou-se no terramoto de Kantō de 1923 e conserva-se tal como ficou, sem têmpera, no Museu Tokugawa de Mito.
Pelo mesmo caminho do Honebami passou o Ichigo Hitofuri (一期一振), o único tachi atribuído a Yoshimitsu, um ferreiro de tantō: queimou-se na queda do castelo de Osaka, em 1615, foi retemperado pelo primeiro Echizen Yasutsugu e guarda-se hoje entre os tesouros da casa imperial.
As feridas de uso
O hakobore (刃こぼれ) é uma lasca do fio. Se é pequena, o polidor tira-a; uma lasca funda obriga a rebaixar muito aço, com o que isso gasta a lâmina (ver o desgaste, mais acima). Ainda assim, há polidores que preferem deixar um pequeno entalhe a deformar a lâmina para o tirar: conservar a forma importa mais.
Outras marcas contam uma história. O kirikomi (切り込み) é o entalhe deixado pelo golpe de outra lâmina, quase sempre no dorso, e o ya-kizu (矢疵), a marca de uma flecha. Chamam-se homare-kizu (誉れ疵), «feridas de honra»: provam que a espada foi mesmo usada e, longe de tirar, podem somar valor. O Ishida Masamune, do Museu Nacional de Tóquio, conserva tantas marcas de corte que também lhe chamam Ishida Kirikomi Masamune.
Acrescentos e enganos
Algumas intervenções tapam um defeito, e convém saber reconhecê-las:
- umegane (埋金): um remendo de aço incrustado para fechar uma fukure, uma abertura ou uma picada de ferrugem (kuchikomi, 朽ち込み). Bem feito, passa despercebido; se o aço do remendo não tem a mesma cor, nota-se. E o remendo não cura nada: a ferrugem continua por baixo e com os anos pode fazê-lo saltar. Os remendos modernos mais bem feitos seguem até o desenho do grão para passarem despercebidos.
- ato-bi (後樋) e ato-bori (後彫): uma canelura ou uma gravação acrescentadas depois da forja. Não são más em si mesmas, mas às vezes fazem-se para esconder um defeito; convém perguntar o que há por baixo. Uma gravação original gasta, pelo contrário, não deveria ser «restaurada»: repassá-la transforma-a num acrescento.
- kaki-bōshi (描き帽子): um bōshi «desenhado». Numa ponta que perdeu a têmpera, o polidor simula um com pequenas marcas de agulha que imitam o brilho do nioi. Visto muito de perto e com boa luz, veem-se as picadas, e por baixo não há têmpera.
Com o hamon passa-se algo parecido. O branco que se vê numa lâmina polida ao estilo atual não é a têmpera mas o hadori (刃取り), um branqueamento que o polidor faz seguindo o hamon e que, por isso, nunca o copia por completo (ver O polimento e os cuidados). Sobre um troço queimado ou sem têmpera, um hadori pode desenhar um hamon que não existe. Há também acabamentos químicos que realçam o hamon e o grão com mais contraste do que o das pedras. Esses acabamentos podem deixar ferrugem sob a superfície e escondem a qualidade real do aço.
Quanto pesa a mão do polidor mostra-o uma história que se conta nas oficinas: uma lâmina polida por Hirai Chiba (平井千葉), um dos grandes polidores do Japão moderno, perdeu a maior parte do seu valor quando outro a repoliu. O aço era o mesmo; o que mudou foi o seu aspeto.
A verificação é simples e serve para todos estes casos: uma luz pontual —uma lâmpada nua, uma lanterna— e a lâmina inclinada aos poucos até o reflexo percorrer o fio. A têmpera verdadeira aparece então como uma linha de grãos brilhantes (nie e nioi) com forma própria, dentro do branco ou na sua orla; onde o branco não esconde têmpera, nada brilha. Um branco sem atividade, que não muda ao inclinar a lâmina, pede um olhar mais demorado e uma segunda opinião.
Um último alerta: se uma fissura conhecida da têmpera deixa de aparecer depois de um polimento novo, e o hamon está apagado precisamente nesse troço, a zona pode ter sido aquecida para a esconder.
A gravidade, numa tabela
Um resumo orientativo: a gravidade real depende sempre do tamanho, do sítio e da própria lâmina.
| Defeito | Gravidade | Porquê |
|---|---|---|
| hagire | Grave | Pode partir a lâmina ao cortar. Na prática das oficinas, não passa a Tokubetsu Hozon. |
| karasuguchi | Grave | A ponta pode quebrar. |
| shinae de forja | Grave | Denuncia um aço que pode dobrar ou partir. |
| Ponta sem têmpera | Grave | A ponta não aguenta o uso. |
| yakemi e saiha | Grave para a obra | A lâmina perdeu a têmpera original e quase todo o valor artístico. |
| Hamon falso, kaki-bōshi | Grave | Escondem um troço sem têmpera. |
| fukure, kitae-ware | Depende | Pequenos e longe do fio, quase não contam; grandes, enfeiam muito. |
| hagarami, tsuki-no-wa | Depende | Pesam mais na metade alta da lâmina e na ponta. |
| nioi-gire, hajimi, yaki-kuzure | Depende | Visuais; contam mais quanto mais longos. |
| tsukare, shingane à vista | Depende | Do aço que resta e da escola. |
| hakobore | Depende | Pequena, pule-se; funda, gasta muita lâmina. |
| umegane, ato-bi, ato-bori | Depende | Do que tapam e de como estão feitos. |
| mizukage | Sinal a verificar | Pode ser original ou de uma retêmpera. |
| masa-ware em grão masame | Não é defeito | É próprio desse grão. |
| mukade-shinae | Não é defeito | Rugas superficiais de endireitar; desaparecem com os polimentos. |
| uchikomi, ishike, sumigomori pequenos | Não é defeito | Sem importância prática. |
| kirikomi, ya-kizu | Soma | São homare-kizu: provas de uso real. |
Para continuar a ler
- Japanese Sword Index · os defeitos da lâmina Os kizu um a um: quais corrige um polidor e quais inutilizam a lâmina. Em inglês.
- Wikipédia · Honebami Tōshirō Uma lâmina célebre queimada no grande incêndio de Meireki (1657) e depois retemperada. Em japonês.
- NBTHK Sword Journal 822 · o mizukage O comentário do NBTHK sobre um Kunihiro: porque aparece o mizukage e porque é preciso decidir se é original ou de uma retêmpera. Em inglês.
- Markus Sesko · a ponta retemperada O yakitsugi-bōshi e o kaki-bōshi, e como se reconhecem. Em inglês.
- Os kizu, num esquema Página de estudo japonesa com um mapa dos defeitos e o método da espiga para medir o desgaste. Em japonês.
- NCJSC · glossário visual dos kizu Um clube de estudo californiano define os defeitos mais comuns, com fotografias. Em inglês.