O polimento e os cuidados

Uma lâmina japonesa só mostra o que tem se estiver bem polida, e só o conserva se for bem cuidada. O polimento fixa a forma e revela a têmpera e o grão, mas cada polimento leva também um pouco de aço que não volta. Aqui conta-se como trabalha o polidor, pedra a pedra; o que muda quando uma lâmina é repolida; e como se mantém e se guarda uma espada segundo a NBTHK, com a sua guarda de ferro, o seu cordão e o seu saco.

O que é o togi e quem o faz

O togi (研ぎ) não é afiar. O polidor, o togishi (研師), trabalha a lâmina inteira, exceto a espiga: fixa a sua geometria, iguala as superfícies e deixa cada zona com um acabamento próprio —o ji escuro, a têmpera branca, o shinogi-ji e o dorso brunidos, a ponta mate. Uma lâmina sem polimento, ou mal polida, não deixa ver nem o hamon nem o hada, e por isso não pode ser julgada; um mau polidor, pelo contrário, pode estragar para sempre uma forma que se mantinha intacta há séculos.

O ofício é antigo e distinto do de ferreiro. A NBTHK situa no tempo do imperador retirado Toba, no século XII, a primeira notícia de polidores especializados, e um livro de espadas do fim do período Kamakura, o Kanchi-in-bon Meizukushi (観智院本銘尽), que enumera sobretudo ferreiros, já nomeia dois. Diz-se que em Muromachi e antes muitos ferreiros poliam a sua própria obra. A partir do século XIV, a família Hon'ami (本阿弥), cujo fundador Myōhon serviu Ashikaga Takauji, cuidou, poliu e avaliou espadas para os Ashikaga, os Toyotomi e os Tokugawa; os seus certificados, os origami, ainda acompanham muitas lâminas antigas (ver «Papéis do NBTHK»).

Chegar a um polimento limpo leva anos, e não se pode fingir: as falhas de um polidor veem-nas ele próprio e os colegas. Durante séculos, aliás, a maioria das lâminas não recebeu o polimento artístico de hoje. Em Muromachi, e sobretudo nas guerras do Sengoku, não havia tempo: tiravam-se as mossas, devolvia-se a forma e a lâmina ficava num shiratogi (白研ぎ), um polimento «branco» sem acabamento que muitas vezes não passava do koma-nagura. Só as lâminas dos grandes daimyō e as guardadas como obras de arte recebiam mais. O acabamento cuidado espalhou-se com a paz de Edo, e a técnica atual do shiage ganhou forma em Meiji.

Hoje o ofício assenta em poucas dezenas de polidores —calculam-se uns cinquenta no Japão—, repartidos sobretudo por duas grandes linhas, a Hon'ami e a Fujishiro. Cinco foram reconhecidos como Tesouro Nacional Vivo: Hon'ami Nisshū e Ono Kōkei (1975), Fujishiro Matsuo, Nagayama Kōkan (1998) e Hon'ami Kōshū (2014). Um polimento completo leva de dez dias a várias semanas, conforme o estado em que a lâmina chega.

Fotografia colorida à mão de um polidor japonês debruçado sobre uma pedra fixada numa tina de madeira, com várias espadas encostadas atrás dele e uma mulher sentada à direita.
Um polidor em plena fase de base, debruçado sobre a pedra fixada na sua tina de água. Postal colorido à mão, por volta de 1909. Crédito: Katherine Wolcott (University of Vermont Libraries) · Domínio público · via Wikimedia Commons
Estampa japonesa de um homem sentado de pernas cruzadas com o braço estendido; ao lado, uma tina de madeira com uma pedra de polir.
O polidor Tazaemon numa estampa de Utagawa Kuniyoshi (1848): ao lado, a tina com a pedra, a ferramenta que define o ofício. Museu Britânico. Crédito: Utagawa Kuniyoshi (British Museum) · Domínio público · via Wikimedia Commons

O shitaji-togi: a forma, pedra a pedra

O polimento tem duas fases. A primeira, o shitaji-togi (下地研ぎ), trabalha a forma: tira a ferrugem e as marcas, endireita, define as arestas e distribui a carne da lâmina. É a mais difícil e a que decide tudo, porque é preciso chegar à geometria certa tirando o mínimo de aço possível.

Antes de tocar numa pedra, o polidor examina a lâmina e, se for preciso, endireita-a com uma alavanca de madeira, o tamegi (矯め木). Uma lâmina acabada de forjar chega-lhe já desbastada pelo próprio ferreiro, o kaji-oshi (鍛冶押し). Depois passa por pedras naturais cada vez mais finas, sempre molhadas; se trouxer ferrugem profunda, começa antes numa pedra artificial muito grossa, a kongō-do (金剛砥). Esta é a ordem que a NBTHK indica:

PedraDe onde vemPara que serve
iyo-do (伊予砥)EhimeTirar a ferrugem e fixar a forma.
binsui-do (備水砥)Amakusa, em KumamotoApagar as marcas da anterior e ajustar a carne da lâmina (niku).
kaisei-do (改正砥)YamagataApagar as marcas do binsui.
chū-nagura-do (中名倉砥)AichiAfinar a superfície e a forma.
koma-nagura-do (細名倉砥)AichiApagar todas as marcas; o hamon e o hada começam a aparecer.
uchigumori-do (内曇砥)QuiotoEm duas durezas: a ha-do branqueia a têmpera e a ji-do, mais dura, faz sobressair o grão do ji.

As fontes não concordam no grão exato de cada pedra, e por isso aqui não se indica: o que importa é a ordem, da mais grossa à mais fina. Com cada pedra muda também a direção do traço —de través ao princípio, cada vez mais oblíqua e por fim ao longo da lâmina—, e cada uma tem de apagar por completo as marcas da anterior: quando as do último passo ficam paralelas e ordenadas, a superfície está livre de irregularidades.

Por volta do chū-nagura, a lâmina sai da oficina para que o habaki-shi lhe faça o colar e o sayashi a bainha de madeira, porque as suas medidas já não vão mudar.

Há pormenores da oficina que não se veem no resultado. A face da pedra não é bem plana: deixa-se um pouco abaulada para respeitar a carne convexa da lâmina. A água do balde torna-se alcalina, com cinza de palha ou bicarbonato, para que o aço não oxide enquanto se trabalha. E a kaisei-do natural de Yamagata esgotou-se: hoje usa-se uma artificial, que nunca se passa na ponta.

Diagrama com seis blocos de pedra de textura cada vez mais fina, numerados de 1 a 6, uma cunha que se estreita para a direita e seis cartões numerados de 7 a 12 com os passos do acabamento.
As pedras por ordem: 1 iyo-do, 2 binsui-do, 3 kaisei-do, 4 chū-nagura-do, 5 koma-nagura-do e 6 uchigumori-do, da mais grossa à mais fina. Em baixo, os passos do acabamento: 7 hazuya, 8 jizuya, 9 nugui, 10 hadori, 11 migaki e 12 narume. A cunha marca o sentido: cada passo tira menos aço do que o anterior. Diagrama: Kantei
Quatro troços de lâmina riscados: com riscas verticais, oblíquas, muito oblíquas e horizontais.
A direção do traço muda de pedra para pedra: 1 de través com a binsui-do, 2 oblíqua com a kaisei-do, 3 muito oblíqua e 4 ao longo da lâmina com as nagura-do. A seta de cima marca o comprimento da lâmina. Diagrama: Kantei
Mesa de polimento com uma pedra sobre um suporte de madeira, uma tina de água e uma lâmina de espada encostada à tina.
Um posto de polimento numa demonstração: a pedra fixada no seu suporte de madeira, a tina de água e uma lâmina encostada a ela. Crédito: Joe Mabel · CC BY-SA · via Wikimedia Commons

O shiage-togi: o acabamento

A segunda fase, o shiage-togi (仕上げ研ぎ), já não muda a forma: traz à luz o que o aço tem dentro. Trabalha-se com lâminas finíssimas de pedra movidas com o polegar, com pós e com uma vareta de aço, e cada escola de polidores guarda as suas receitas.

PassoCom quêO que consegue
hazuya (刃艶)Uma lâmina de uchigumori desbastada até à espessura de um papel e colada em papel Yoshino.Sobre a têmpera, faz sobressair o nie e o nioi.
jizuya (地艶)Uma lâmina de pedra de Narutaki, mais dura, colada em papel ou esmigalhada com a unha, conforme a escola.Sobre o ji, afina a superfície e torna visível o hada.
nugui (拭い)Óxido de ferro da forja, calcinado e moído, em óleo de cravinho, filtrado por papel e espalhado com algodão.Escurece o ji e dá-lhe lustro.
hadori (刃取り)De novo a hazuya, seguindo o hamon.Devolve o branco à têmpera, que o nugui também tinha escurecido.
migaki (磨き)Uma vareta de aço polido, depois de desengordurar com pó de chifre e polvilhar cera de inseto.Brune em espelho o shinogi-ji e o dorso.
narume (ナルメ)A melhor hazuya, sobre um suporte flexível.Traça a linha do yokote e deixa a ponta num mate como de vidro fosco.

O hadori não decalca o hamon nem tem de o fazer: é a leitura que o polidor faz da têmpera, e cada escola trata-o à sua maneira; segundo a Wikipédia japonesa, a Hon'ami começa pelo lado do dorso e a Fujishiro pelo gume. No fim, quase todos deixam a sua assinatura: os nagashi (流し), linhas brunidas junto ao habaki e no dorso da ponta, quase sempre em número ímpar. Não são necessários para que um polimento seja bom, e há polidores que não os põem.

As receitas variam mais do que parece. O nugui pode levar óleo de camélia em vez de cravinho, e há escolas que lhe juntam pó de ouro ou de malaquite. Uns colam a jizuya a papel (hari-jizuya, 張り地艶) e outros esfarelam-na com a unha (kudaki-jizuya, 砕き地艶). O brunido também tem duas maneiras: um migaki forte deixa o shinogi-ji como um espelho, mas pode tapar um aço pobre; um suave, ou nenhum, deixa ver o aço como é, e há entendidos que o preferem. Por fim, os nagashi dizem algo do ofício: costumam ser três na ponta e sete ou onze junto ao habaki, e linhas retas, paralelas e bem espaçadas são sinal de boa mão, porque a um polidor desajeitado não saem.

Lâmina de espada fotografada na vertical: uma faixa branca ondulada junto ao gume, uma faixa escura e brilhante junto ao dorso e a ponta esbranquiçada.
Uma lâmina com o acabamento de hoje: a faixa branca do hadori ondula junto ao gume, o shinogi-ji brunido em espelho reflete escuro e a ponta fica mate depois do narume. Crédito: Dan Culleton · CC BY · via Wikimedia Commons
Esquema da ponta de uma lâmina vista de lado, com seis zonas numeradas: uma faixa escura, uma faixa branca ondulada, uma faixa brilhante em cima, a ponta mate, uma linha vertical branca e três risquinhos no dorso da ponta.
O que cada passo deixa na ponta de uma lâmina: 1 o nugui escurece o ji; 2 o hadori branqueia a têmpera; 3 o migaki brune o shinogi-ji; 4 o narume deixa a ponta mate; 5 a linha do yokote; 6 as linhas do nagashi, a assinatura do polidor. Diagrama: Kantei

Keshō-togi e sashikomi: duas maneiras de mostrar a mesma lâmina

O acabamento que domina hoje é o keshō-togi (化粧研ぎ), o «polimento de maquilhagem»: ji negro e brilhante, hadori branco e shinogi-ji em espelho. Fixou-o na era Meiji Hon'ami Heijūrō Narishige (本阿弥平十郎成重), falecido em 1882, com base no estilo anterior, e desenvolveu-o o seu sucessor Hon'ami Ringa, falecido em 1927. É um acabamento vistoso e fácil de ler: a têmpera vê-se num relance, também numa vitrine ou numa fotografia.

O keshō-togi impôs-se por mais do que o gosto. Em Meiji, o édito que proibiu o porte de espada, o Haitōrei (廃刀令), fez da lâmina um objeto de coleção e multiplicou os aficionados. E a luz elétrica permitiu trabalhar a qualquer hora e ver a têmpera muito melhor do que à luz de velas, o que impulsionou o hadori. No fim do século XX calculava-se que oito em cada dez polidores preferiam o hadori, e que nove em cada dez lâminas do concurso anual de polimento da NBTHK iam polidas assim.

O estilo anterior é o sashikomi-togi (差し込み研ぎ). As fontes não descrevem da mesma forma os seus passos, por isso convém defini-lo pelo que se vê: não há um branco desenhado à parte do hamon; a têmpera aparece como é, só um pouco mais clara do que o ji, e o aço mostra-se sem maquilhagem, com as suas virtudes e os seus defeitos. É um acabamento mais apagado, que faz sobressair bem o utsuri e envelhece melhor, e reserva-se sobretudo para lâminas de têmpera nítida que o aguentam.

A maquilhagem tem o seu preço: pode tapar falhas da lâmina e esconder as subtilezas do aço. Há entendidos que preferem o sashikomi precisamente por isso. Nas oficinas conta-se de um polidor famoso, cujo keshō-togi fazia subir as lâminas dois ou três degraus na estima dos compradores, que tinha as obras-primas da sua própria coleção polidas à maneira antiga; e o Museu de Arte Tokugawa, em Nagoya, conserva lâminas com polimentos de Edo desta classe. Há polidores que, num sashikomi, leem o carácter do fio no brilho da têmpera: uma têmpera baça seria mais tenaz; uma muito brilhante, mais cortante mas mais frágil. Observou-se que muitas lâminas kotō têm a têmpera baça, como se o ferreiro tivesse procurado um fio resistente mais do que muito duro.

A diferença importa ao olhar. Num keshō-togi, a orla da faixa branca é obra do polidor, e o verdadeiro hamon —a linha de nie ou de nioi— está dentro dela. Encontra-se inclinando a lâmina sob uma luz pontual, que faz brilhar a linha real e apaga o branco do hadori (ver «A têmpera à vista»).

Há outros acabamentos, menos vistos. Um polimento terminado só com hazuya deixa a lâmina inteira branca e baça, mas mostra como nenhum outro a têmpera, o utsuri e a atividade do aço: é o melhor para aprender a olhar uma têmpera. O chamado acabamento a água, mizu-shiage (水仕上げ), passa hazuya na têmpera e jizuya no resto, sem o óleo do sashikomi, e fica mais claro e mais branco. Em qualquer estilo, a ponta de uma lâmina com shinogi acaba-se sempre com hazuya; por isso se diz que a ponta é onde melhor se estuda a qualidade de uma lâmina.

Três painéis com o mesmo troço de lâmina: com uma faixa branca que envolve uma linha ondulada, sem faixa e com a linha à vista, e no escuro só com a linha brilhante sob um foco.
O mesmo troço de lâmina, três olhares: 1 com keshō-togi, a faixa branca do hadori envolve a linha real da têmpera; 2 com sashikomi não há faixa à parte e a têmpera vê-se como é; 3 sob uma luz pontual só brilha a linha real. Diagrama: Kantei

O que muda um repolimento

O hamon está no aço, e um repolimento normal tira tão pouco que não o desloca. O que muda é o seu aspeto: o desenho do hadori, a cor do ji, o brilho do nie e do nioi, a largura aparente da têmpera. Por isso a mesma lâmina «parece outra» nas mãos de outro polidor, e por isso uma fotografia antiga e uma recente da mesma peça podem não se parecer. Com o grão passa-se algo parecido: o desenho das camadas não muda, mas o polidor pode realçar mais as camadas ou mais as partículas do aço.

As oficinas guardam casos que o mostram. Um tantō de ko-itame fino com chikei, tranquilo e discreto, saiu de um segundo polimento com um masame muito marcado junto ao dorso e uma têmpera muito mais estridente: o primeiro polidor tinha realçado as partículas do aço, e o segundo, as camadas. Um tachi de Ko-Aoe Moritoshi com um polimento de há um século tinha ferrugem funda a meio do fio; o dono temia que o repolimento lhe estragasse a forma, e um Hon'ami repoliu-o sem lhe tocar, mas a lâmina mudou de carácter: o ji passou a um grão muito fino com jinie prateado, o hada grande e o utsuri enevoado desapareceram, e o nie da têmpera ficou brilhante e forte. De suave a enérgica, com o mesmo aço. E às vezes a mudança paga-se: uma lâmina polida por Hirai Chiba (平井千葉), um polidor de grande renome, perdeu a maior parte do seu valor quando outro a repoliu.

O que não volta é o aço. Cada polimento leva uma camada, e a espiga, que nunca se pole, conserva a espessura original: comparar as duas dá uma ideia de quanto a lâmina perdeu. Um polimento que tira muito muda de facto o essencial: a têmpera achata-se e estreita, a curvatura baixa e a lâmina pode deixar de encaixar na sua bainha. Achatar a carne da lâmina fá-la brilhar mais numa vitrine, mas enfraquece o gume e a ponta (ver «A forma (sugata)»). O desgaste acumulado tem nome, tsukare (疲れ), e explica-se em «O estado da lâmina: defeitos e enganos».

Conta-se o caso de um ferreiro a quem um velho mestre de iai pediu, anos depois, que aligeirasse a lâmina que lhe tinha forjado por medida, porque já lhe pesava. Foi-se desbastando por fases, e o mestre experimentava-a de cada vez. No fim, a têmpera, um kawazuko-chōji, tinha passado a um ko-midare com tobiyaki, a curvatura tinha baixado e a lâmina já não entrava até ao fundo da bainha. O desgaste, além disso, não é igual: a ponta gasta-se mais do que a base, de modo que a curvatura parece concentrar-se em baixo (koshizori), o yokote e a parte mais grossa da lâmina deslocam-se para a espiga, e os machi perdem profundidade; quando desaparecem, é preciso refazê-los à lima. Observou-se também que alguns polidores de renome tiram carne a lâminas sãs, no hiraniku ou na ponta, porque uma superfície plana brilha mais e uma ponta assim parece mais larga numa vitrina ou numa fotografia. Na mão, essa forma desilude: as linhas de uma lâmina não são a sua forma.

Daí a regra prática: polir só quando é preciso —por ferrugem, por uma mossa ou porque o polimento velho já não deixa ver a lâmina— e sempre com um polidor de ofício. Hoje pole-se muitas vezes só para apresentar uma lâmina a exame, e polir sem necessidade é um risco. E nunca em casa: nem lixas, nem pastas, nem pedras soltas; uma mancha de ferrugem é trabalho do polidor.

Duas vezes o mesmo troço de lâmina, com a mesma linha tracejada e uma faixa branca diferente em cada um: larga e suave em cima, estreita e justa em baixo.
A mesma lâmina com dois polimentos: 1 um hadori largo e de ondas suaves; 2 outro estreito que segue de perto a têmpera. A linha do hamon, tracejada, é idêntica nos dois: muda a leitura, não o aço. Diagrama: Kantei

A manutenção segundo a NBTHK

A manutenção, o teire (手入れ), não é polir: é trocar o óleo velho por óleo novo e examinar a lâmina. O guia da NBTHK no seu Museu da Espada é a referência; há outras práticas, e onde as fontes divergem diz-se mais abaixo.

Primeiro, o manuseamento. A espada anda sempre no seu saco e leva-se com a mão direita, o punho para cima. Ao desembainhar e embainhar, o gume fica virado para cima, e a lâmina sai devagar depois de soltar só o habaki da boca da bainha (koiguchi wo kiru). A lâmina não se toca com os dedos nem se fala por cima dela: o suor e a saliva enferrujam-na.

As ferramentas:

  • mekugi-nuki (目釘抜): o punção de latão ou de bambu com que se tira a cavilha do punho;
  • uchiko (打粉): uma bolinha de pó de pedra muito fino, embrulhado em papel Yoshino e depois em algodão ou seda;
  • dois nuguigami (拭い紙), papéis macios e bem amaciados: um para tirar o óleo velho e outro para tirar o pó (também serve uma flanela lavada e sem goma);
  • chōji-abura (丁子油), o óleo de cravinho, e um pedacinho de pano ou de papel para o espalhar.

A sequência, resumida na figura:

  1. tirar o mekugi;
  2. desembainhar e tirar a tsuka com pancadinhas no pulso, primeiro leves: um tantō pode saltar;
  3. tirar as seppa, a tsuba e o habaki;
  4. passar o primeiro papel da base para a ponta, sem apertar e com cuidado no kissaki, para retirar o óleo velho;
  5. dar toques de uchiko nas duas faces;
  6. retirar o pó com o segundo papel;
  7. ver se há ferrugem ou algum dano;
  8. olear com uma camada fina e uniforme;
  9. na espiga, pouco óleo, com os dedos, sem que fique pegajosa;
  10. voltar a montar e embainhar.

A frequência, segundo o texto atual da NBTHK: uma lâmina acabada de polir, mais ou menos uma vez por mês durante o primeiro meio ano; uma de polimento antigo, duas vezes por ano, na primavera e no outono. Outros guias pedem revisões mais seguidas ao princípio, e todos concordam em vigiar de perto uma lâmina acabada de polir.

Há dois pontos em que as fontes não estão de acordo. O uchiko é pó de pedra, um abrasivo suave: a NBTHK inclui-o na rotina, e outros especialistas pedem que se use com moderação —ou que não se use— sobre um polimento recente, porque com o tempo risca o acabamento. E o óleo da espiga: a NBTHK pede pouco, e há quem considere desnecessário olear a espiga de uma lâmina antiga.

A prática das oficinas acrescenta pormenores. Ao desembainhar uma espada montada, o polegar empurra a tsuba; numa shirasaya, o polegar não se apoia na aresta do punho, que se suja logo. A lâmina pousa-se sobre um pano limpo, nunca sobre um tapete. Para o óleo velho servem papel japonês, flanela, lenços de papel macios sem loção, camurça ou microfibra. Quanto ao uchiko, há polidores que o consideram imprescindível num sashikomi: com os anos, esse polimento suave de óleo, pó e pano vai revelando o utsuri e pormenores que um polimento acabado de fazer não mostra, e há lâminas tratadas assim durante muito tempo com um aspeto que nenhum polimento novo consegue. Os mesmos desaconselham-no sobre um keshō-togi, porque apaga a maquilhagem, e nesse caso limpam com microfibra. E cuidado com os uchiko baratos: algum leva pó de osso.

Dez cartões numerados com pictogramas dos passos da manutenção e, em baixo, duas filas de doze círculos: seis preenchidos seguidos na primeira e dois afastados na segunda.
A manutenção em dez passos: 1 tirar o mekugi, 2 tirar a tsuka, 3 tirar o habaki, 4 retirar o óleo velho (shita-nugui), 5 uchiko, 6 retirar o pó (age-nugui), 7 examinar, 8 óleo novo, 9 pouco óleo na espiga, 10 montar. Em baixo, a frequência da NBTHK ao longo de um ano: A, acabada de polir, todos os meses durante seis meses; B, polimento antigo, na primavera e no outono. Diagrama: Kantei

Onde e como se guarda

A causa mais comum da ferrugem não é o ar mas o atrito: uma bainha gasta ou suja que toca na lâmina, o saya-atari (鞘当り). O remédio é levar a bainha ao sayashi ou mandar fazer uma nova. Para guardar a lâmina, a NBTHK aconselha a shirasaya e não a montagem antiga; antigamente chamava-se-lhe também «bainha de descanso», yasume-zaya (休め鞘), ou «bainha do óleo», abura-zaya (油鞘). A shirasaya fecha-se com goma de arroz, sokui (続飯), para se poder abrir e limpar por dentro; nunca com cola moderna. A montagem conserva-se à parte, montada no seu tsunagi (ver «Estilos de montagem (koshirae)»).

Mais dois pormenores. A shirasaya é de madeira de hōnoki (朴の木), que encolhe no inverno: a lâmina pode custar mais a sair, e não se deve forçar. E um origami antigo dos Hon'ami guarda-se dobrado pelas suas próprias dobras, sem o alisar.

A espada guarda-se deitada e não de pé, porque o óleo escorre e acumula-se na ponta; num sítio seco, longe do sol e do aquecimento. O ideal é um móvel de madeira de paulównia. Nada de cânfora nem de naftalina por perto: enferrujam o aço. A montagem, pelo contrário, não quer um sítio demasiado seco, que castiga a laca e a madeira. O certificado de registo e os papéis guardam-se à parte, numa capa.

Se aparecer ferrugem, vai para o polidor: não se raspa com uma espátula de chifre, nem com uma moeda, nem com nada. Um ponto de ferrugem que se deixa crescer acaba em picada, e uma picada só se tira levando aço.

A tsuba de ferro, o sageo e o saco

Uma tsuba de ferro não se cuida como uma lâmina. A sua superfície é uma pátina de óxido negro, o kuro-sabi (黒錆), estável e procurada, que não se deve tirar; o que é preciso vigiar é a ferrugem vermelha, o aka-sabi (赤錆), que essa sim avança. A prática tradicional é retirá-la esfregando com algo mais macio do que o ferro, como a haste de veado, e depois esfregar com um pano de algodão, muito tempo e com paciência, até a pátina negra recuperar o brilho: é trabalho de meses. Nada de escova de arame, lixa ou produtos para metais, que levam a pátina com a ferrugem. Sobre o óleo e a cera há opiniões: a prática tradicional dispensa os dois, e há quem os admita numa camada mínima. Guardada, a tsuba respira melhor ao ar do que sempre fechada na sua caixa.

Há mais matizes. A haste de veado tem a dureza certa: tira a ferrugem vermelha e respeita a negra; na falta dela, serve algo parecido, como o cabo de plástico de uma escova. Quem recusa o óleo e a cera explica-o assim: a camada prende a humidade, e a ferrugem continua a trabalhar por baixo, onde já não se pode tirar. Se a tsuba tem incrustações de ouro, trabalha-se à volta com muito cuidado. E pô-la ao sol de vez em quando faz aflorar a ferrugem vermelha escondida, que depois se retira.

Atenção também às tsuba de ferro fundido. São cópias tardias feitas por fundição, sobretudo de modelos das escolas Owari e Akasaka; de quando foram feitas fala-se em «A montagem em detalhe». Reconhecem-se pela marca da junta do molde nos vazados, por um tamanho um pouco menor —o metal encolhe ao arrefecer—, por arestas baças e por uma pátina estranha. São tão frágeis que partem com uma pancada: servem para olhar, nunca para montar numa espada.

O sageo (下緒) é o cordão da bainha, quase sempre uma trança plana de seda. Passa pelo kurigata (栗形) e servia para atar a bainha ao obi, para que não saísse com a lâmina ao desembainhar; quando o gancho kaerizuno (返角) se generalizou, ficou como auxiliar e ornamento. Tinha outros usos —laço para o pulso, atar a tsuba à bainha para mostrar que não se ia desembainhar, arregaçar as mangas— e no período Edo a sua cor chegou a ser regulada por categoria. Muitas escolas de iai conservam a sua própria maneira de o usar.

Algumas tsuba têm dois furos pequenos para as atar à bainha: era costume de Satsuma, onde os pais chegavam a prender com arame a tsuba à bainha para que os rapazes não pudessem desembainhar nos treinos. E o cordão não se usou sempre da mesma maneira: no século XVI, o troço comprido pendia atrás da bainha e o curto ia metido no obi; nos desfiles formais do XIX, o comprido pendia atrás com o curto atado a ele.

Os nós com que hoje se vê o sageo servem para expor, guardar ou transportar a espada: à cintura, o cordão ia solto ou metido no obi. O sei-musubi (正結び), o nó formal de Edo, desfaz-se com um só puxão; o noshi-musubi (熨斗結び) dobra o cordão ao longo da bainha; o maki-musubi (巻結び), enrolado, serve para transportar, mas deixado anos marca a laca e gasta o próprio cordão; o daimyō-musubi (大名結び), vistoso, é só de exposição. Quanto mais complicado o nó, mais sofre a seda: para guardar a espada basta um simples.

O sei-musubi chama-se também chō-musubi (蝶結び), e o daimyō-musubi, rōnin-musubi (浪人結び); há ainda o tantō-musubi (短刀結び) e o myōga-musubi (茗荷結び), que remata as pontas. Diz-se que os nós carregados, que já não seguram nada, eram coisa de comerciantes ricos, para quem a espada à cintura era um sinal de posição e não uma arma.

O saco, o katana-bukuro (刀袋), põe-se metendo a espada pelo kojiri, com a costura do lado do dorso; o que sobra dobra-se, o cordão enrola-se de baixo para cima e fecha-se com um nó. Os sacos de brocado são bonitos, mas retêm humidade: é preciso arejá-los e vigiar o que guardam.

Tsuba redonda de ferro com uma águia em relevo e folhas de bambu douradas; a superfície escura mostra tons avermelhados.
Uma tsuba de ferro com uma águia em relevo: a pátina escura do ferro, com tons avermelhados na superfície. The Metropolitan Museum of Art. Crédito: The Metropolitan Museum of Art · CC0 · via Wikimedia Commons
Cordão largo e plano de seda entrançada, em branco, roxo, verde e laranja, com brasões redondos e franjas numa ponta.
Um sageo de tachi, uma trança plana de seda (kumihimo) com os brasões dos Tokugawa. Museu Nacional de Tóquio. Crédito: Tokyo National Museum (ColBase) · CC BY · via Wikimedia Commons
Quatro bainhas vistas de lado com o cordão disposto de quatro maneiras: com um laço junto ao kurigata, dobrado ao comprido, enrolado em espiral e num entrançado de losangos.
Quatro maneiras de dispor o sageo, em esquema: 1 sei-musubi, o nó formal; 2 noshi-musubi, dobrado ao longo da bainha; 3 maki-musubi, enrolado para transportar; 4 daimyō-musubi, de exposição. Não são instruções para atar. Diagrama: Kantei