Papéis do NBTHK

Um papel não transforma uma lâmina em obra de arte: regista o que um júri decidiu sobre ela num dia concreto, com critérios publicados. Saber quem o emitiu, em que nível e em que ano é metade da leitura de uma ficha. A outra metade é saber o que não atesta: o registo japonês de uma espada, por exemplo, não diz nada sobre a sua autenticidade.

NBTHK e NTHK: duas siglas que não valem o mesmo

O NBTHK — Nihon Bijutsu Tōken Hozon Kyōkai (日本美術刀剣保存協会), a sociedade para a conservação da espada japonesa como arte — foi fundado em 1948, publica a revista Tōken Bijutsu e gere o Museu da Espada Japonesa, em Yokoami, no bairro de Sumida, em Tóquio. Os seus exames, os shinsa, e os seus critérios publicados são a referência do mercado internacional.

O NTHK — Nihon Tōken Hozonkai (日本刀剣保存会) — reclama uma tradição mais antiga, que remonta a 1910. Depois de uma cisão, hoje são duas organizações distintas que não emitem o mesmo. A NTHK-NPO, registada como entidade sem fins lucrativos em 2002, examina uma vez por mês e emite kanteisho (鑑定書), shinteisho (審定書) — quando a assinatura é boa mas o estado da lâmina não permite um kanteisho — e, para as obras excecionais, um yūshūtō kanteisho (優秀刀鑑定書). A escala completa de 60 a 100 pontos, com os graus mais altos, é do outro ramo, o que realiza exames no estrangeiro, sobretudo nos Estados Unidos:

Grau NTHKPontosLeitura
shinteisho60-69obra autêntica
kanteisho70-84obra importante
yūshū-saku85-94obra muito notável
sai-yūshū-saku95-100obra da máxima importância

Os três sistemas são sérios, mas não são equivalentes nem intercambiáveis: um papel de qualquer das duas NTHK não é um Hozon nem se converte num, e uma mesma palavra, como shinteisho, não significa o mesmo em cada uma.

O NTHK nasce de uma revista: em 1910, Takase Ukō (高瀬羽皐, 1853–1924) fundou Tōken to rekishi (刀剣と歴史, Espadas e história), que a associação continua a publicar. O seu papel também não se parece com o do NBTHK: na face interior descreve a lâmina campo a campo — a assinatura (meibun), a forja (kitae), o hamon, o bōshi, as gravuras (chōkoku), a espiga (nakago) e umas observações (bikō) com a província e a época estimada, do tipo «por volta de Ōei» — e traz o oshigata da espiga com o seu selo. O kanteisho e o shiteisho do NBTHK não descrevem a lâmina; só o Jūyō vem acompanhado de um texto fundamentado, o setsumei.

Os dois ramos conservam o mesmo nome, Nihon Tōken Hozonkai (日本刀剣保存会), e uma revista com o mesmo título, Tōken to rekishi: o nome, por si só, não basta. Segundo o que cada uma publica no seu site, distinguem-se assim. A NTHK-NPO, entidade sem fins lucrativos (特定非営利活動法人, tokutei hieiri katsudō hōjin), tem a secretaria em Shinagawa (Tóquio) e examina no terceiro domingo de cada mês, exceto em agosto (hozonkai.jp). A outra tem a sede em Kanda, no bairro de Chiyoda (Tóquio), e a secretaria em Osaka; examina na sede no segundo domingo de cada mês e já examinou também em São Francisco, com o clube de espadas do norte da Califórnia (nihontouken.org). Esta segunda conta assim a sua origem: a revista sai na primavera de 1910 e a sociedade é fundada em outubro de 1912. Perante um papel de qualquer uma delas, o que identifica o emissor é o selo e a morada que leva, não a sigla.

Fachada curva em betão do Museu da Espada Japonesa do NBTHK, em Yokoami (Sumida, Tóquio), com o seu jardim e lago em primeiro plano.
O Museu da Espada Japonesa, sede do NBTHK em Yokoami (Sumida, Tóquio) desde 2018, obra do atelier de Fumihiko Maki. Crédito: Edomura no Tokuzo (江戸村のとくぞう) · CC BY-SA · via Wikimedia Commons

Os quatro níveis do NBTHK

NívelKanjiSessões por anoO que atesta
Hozon保存刀剣quatrolâmina digna de conservação: assinatura correta, ou atribuição sustentável se não a tiver
Tokubetsu Hozon特別保存刀剣quatroespecialmente digna de conservação: melhor execução e melhor estado
Jūyō重要刀剣umaimportante, à altura de um Objeto de Arte Importante reconhecido pelo Estado
Tokubetsu Jūyō特別重要刀剣uma a cada dois anosespecialmente importante, próxima de um Bem Cultural Importante

A ordem é obrigatória e cumulativa: só se apresenta a Tokubetsu Hozon o que já tem Hozon; a Jūyō, o que passou o Tokubetsu Hozon; e a Tokubetsu Jūyō, o que passou o Jūyō. Não se salta nenhum degrau, e o calendário impõe o seu ritmo: uma lâmina não pode passar de nada a Jūyō num ano. Na prática do trâmite, contudo, o NBTHK permite pedir Hozon e Tokubetsu Hozon juntos na primeira apresentação.

Escada de quatro degraus com os níveis Hozon, Tokubetsu Hozon, Jūyō e Tokubetsu Jūyō, cada um com o seu número de sessões de shinsa por ano.
Quatro degraus, por esta ordem: uma lâmina não pode ser apresentada ao Jūyō sem antes ter aprovado o Tokubetsu Hozon. Diagrama: Kantei

O que exige cada nível, segundo o texto oficial

Os critérios estão publicados; a versão em vigor é a revisão de 19 de maio de 2015. Em resumo:

  • Hozon: obra não posterior ao período Edo com a assinatura correta, ou sem assinatura (mumei) mas com época, província e linhagem identificáveis. Tolera-se algum cansaço ou alguma falha se a lâmina continuar apreciável, e os restauros não devem afear o conjunto. De Meiji em diante, só assinada e bem feita. As lâminas retemperadas (saiha) são rejeitadas, salvo obras assinadas de ferreiros célebres não posteriores a Nanbokuchō, de alto valor documental e com poucos danos na lâmina e na espiga, que podem passar com essa nota. O duvidoso fica em suspenso (horyū).
  • Tokubetsu Hozon: entre as Hozon, as de melhor execução e melhor conservação. Ficam de fora as retemperadas e as mumei de Muromachi e Edo, salvo se julgadas obra superior de um ferreiro célebre e em estado excelente.
  • Jūyō: entre as Tokubetsu Hozon, as de execução especialmente notável e bom estado, equiparáveis a um Objeto de Arte Importante (jūyō bijutsuhin). Sem assinatura só se admitem as não posteriores a Nanbokuchō; de Muromachi em diante é preciso assinatura, e de Edo em diante, por norma, espiga íntegra (ubu) e assinada.
  • Tokubetsu Jūyō: entre as Jūyō, as de execução excecional, estado ótimo e valor documental altíssimo, equivalentes a um Objeto de Arte Importante ou próximas de um Bem Cultural Importante (jūyō bunkazai).

Três regras comuns a todos os níveis: uma falha grande que afeie a peça impede a aprovação; não se examinam obras de artistas vivos; e se uma peça já certificada é apresentada e não passa, resolve-se «tal como está» (genjō) e conserva o certificado que tinha.

Grade que compara, nível a nível, se se admite assinatura, mumei tardio, saiha ou espiga íntegra.
Resumo simplificado dos critérios oficiais: cada nível é mais exigente do que o anterior nos mesmos pontos. Diagrama: Kantei

Quem julga: os graus de perito (den'i)

O NBTHK não se limita a examinar espadas: também atribui graus a quem as estuda. O seu regulamento de graus (伝位授与規程, den'i juyo kitei), na revisão de 19 de março de 2015, fixa quatro, que se pedem por ordem, um depois do outro, e cada um em dois ramos: o das lâminas e o das montagens e guarnições.

GrauComo se obtém
初伝位 (shoden'i)um exame escrito recebido pelo correio e devolvido dentro do prazo; aprova-se com 80 pontos em 100
中伝位 (chūden'i)na sede, um ensaio de 60 minutos e uma prova prática de kantei, de lâminas ou de guarnições; 80 pontos em cada uma
奥伝位待遇 (okuden'i taigū)as duas provas anteriores e um exame oral de 30 minutos; 80 pontos em cada uma
奥伝位 (okuden'i)as mesmas três provas, para o grau mais alto

Para quem lê um papel, o que conta é o artigo 9: a partir do okuden'i taigū, o grau habilita a ser juiz dos exames do NBTHK, 審査員 (shinsain); a partir do chūden'i, a ser instrutor da associação. Os graus não dizem quem julga cada sessão, mas dizem o que teve de demonstrar, com provas práticas de kantei e um exame oral, quem a pode julgar.

Anatomia de um papel moderno, campo a campo

O papel segue um formato fixo, em colunas verticais que se leem de cima para baixo e da direita para a esquerda. Eis o que traz um kanteisho (鑑定書) de Hozon ou de Tokubetsu Hozon; o shiteisho (指定書) de Jūyō e Tokubetsu Jūyō muda o título e a fórmula. A fotografia é um Hozon real de 1996, com a assinatura e o número tapados pelo seu autor, e o diagrama numera cada campo:

  1. Título: 鑑定書 (kanteisho), em cima à direita.
  2. Tipo de peça: 刀 (katana), 太刀 (tachi), 脇差 (wakizashi), 短刀 (tantō)…
  3. Assinatura: 銘 (mei) e a assinatura tal como está gravada; se não houver, 無銘 (mumei) e a atribuição.
  4. Comprimento: 長 (naga), nas unidades tradicionais — shaku (尺), sun (寸) e bu (分) —, às vezes com 強 (kyō, «e um pouco mais»). O da fotografia diz 一尺八寸四分 (isshaku hassun yonbu), cerca de 55,8 cm. Para o comparar com a nagasa medida é preciso passá-lo a centímetros: um shaku são 30,3 cm (ver «Tipos de lâmina»).
  5. Nível: não encabeça o papel; vai dentro da fórmula que certifica o exame: «右は當協會に於て審査の結果保存刀剣と鑑定しこれを証する» («certificamos que a peça à direita, examinada por esta associação, é considerada Hozon tōken»).
  6. Data do exame: era japonesa, ano, mês e dia; na fotografia, 平成八年 (Heisei 8, 1996).
  7. Selo da associação: sob o seu nome, 日本美術刀剣保存協會 (Nihon Bijutsu Tōken Hozon Kyōkai), o selo vermelho, em relevo: sente-se ao passar o dedo e é a verificação mais citada contra as cópias.
  8. Número e selo partido: em cima à direita, № e o número do papel. Ao lado, um selo vermelho que a margem corta ao meio: um selo partido (割印, wariin), carimbado a cavalo entre o papel e a folha de que foi separado.
  9. O tōrokushō da lâmina: em baixo à esquerda, num quadro, o registo com que a lâmina foi apresentada: a prefeitura (por exemplo 東京都 教育委員会, Tōkyō-to kyōiku iinkai, a junta de educação de Tóquio), o número e a data da inscrição. Numa lâmina exportada, é o registo que foi devolvido à saída do Japão.
  10. Nível perfurado: em cima à esquerda, em furinhos, o nível abreviado — 特保 (tokuho) num Tokubetsu Hozon — e um número.
  11. Fotografia da espiga: a fotografia (ou um oshigata, o decalque a tinta) da lâmina ou do seu nakago, com a assinatura e os mekugi-ana, para confirmar que corresponde à lâmina que se tem à frente.

O suporte também importa: é washi de qualidade, com um toque que nada tem a ver com uma fotocópia ou uma impressão de escritório, e isso faz parte do que um especialista verifica antes do texto.

Kanteisho de Hozon de 1996 para um wakizashi: o título 鑑定書 (kanteisho) à direita, o comprimento 一尺八寸四分 (isshaku hassun yonbu), a fórmula com o nível, a data, o selo vermelho do NBTHK, o número com o seu selo partido em cima e a fotografia da espiga; a assinatura e outros dados tapados pelo seu autor.
Um kanteisho real: Hozon de 1996 (Heisei 8) para um wakizashi. O comprimento vem em shaku, sun e bu, e o selo em cima à direita fica cortado pela margem: é o selo partido. Crédito: Y.T · Domínio público · via Wikimedia Commons
Diagrama numerado de um kanteisho moderno do NBTHK: título, tipo de peça, assinatura, comprimento em shaku, nível dentro da fórmula, data, selo, número com o seu selo partido, tōrokushō anotado, nível perfurado e fotografia da espiga.
Um kanteisho de Tokubetsu Hozon, campo a campo, com os números da lista. Diagrama esquemático nosso, desenhado a partir de papéis reais. Diagrama: Kantei

Os papéis antigos e por que hoje não contam

O NBTHK não inventou o hábito de pôr por escrito o julgamento sobre uma lâmina. Desde o período Edo, a família Hon'ami — polidores e avaliadores ao serviço do xogunato — emitia os seus próprios origami: um papel dobrado com a atribuição e, muitas vezes, uma avaliação em dinheiro. O da fotografia, datado de Genroku 15 (1702) e assinado por Hon'ami Kōchū, certifica um tantō atribuído a Yukimitsu e anota a sua avaliação em ouro. Os papéis do NBTHK, ao contrário destes, não dizem nada sobre dinheiro; julgam apenas a peça. A palavra origami — «papel dobrado» — vem daí, e hoje usa-se para falar de qualquer parecer sobre uma espada, do NBTHK ou de qualquer outro.

O diagrama ao lado numera o nível, a data do exame (em era Shōwa), o número de registo e o selo de quem examinou a peça; as três cores de papel são detalhadas na tabela:

  1. Título e nível: o papel intitula-se 認定書 (ninteisho), e o nível vem na fórmula do texto; aqui, 特別貴重刀剣 (Tokubetsu Kichō).
  2. Data do exame: era Shōwa, entre 1948 e 1982.
  3. Número de registo: próprio da sessão.
  4. Selo de quem o examinou: uma delegação local ou a sede central.
  5. Kichō ninteisho (貴重刀剣): papel branco.
  6. Tokubetsu Kichō ninteisho (特別貴重刀剣): papel verde.
  7. Kōshu Tokubetsu Kichō ninteisho (甲種特別貴重刀剣): papel azul.
PapelCorEmitido
Kichō ninteisho (貴重刀剣)brancode 12 de setembro de 1948 a maio de 1982
Tokubetsu Kichō ninteisho (特別貴重刀剣)verdede março de 1950 a maio de 1982
Kōshu Tokubetsu Kichō ninteisho (甲種特別貴重刀剣)azulde setembro de 1973 a maio de 1982
Jūyō tōken (重要刀剣)—desde maio de 1958, só da sede central
Tokubetsu Jūyō tōken (特別重要刀剣)—desde dezembro de 1971, só da sede central

Em 1980 descobriu-se que delegações locais tinham estado a aprovar muito acima do que era devido, com o crime organizado envolvido. As delegações deixaram de examinar e em setembro de 1982 o NBTHK substituiu todos os níveis anteriores ao Jūyō pelos atuais Hozon e Tokubetsu Hozon. Aqueles ninteisho não foram convertidos nem revalidados: hoje leem-se como documentos históricos, não como atribuições, e para ter um parecer em vigor a lâmina tem de voltar ao shinsa. O Jūyō e o Tokubetsu Jūyō, que só saíam da sede central, não foram tocados e continuam a dar-se por bons em qualquer ano.

Entre colecionadores a discussão continua viva: emitiram-se centenas de milhares de papéis e muitas atribuições eram razoáveis. Mas como critério de compra, um papel verde não sustenta nada por si só, e voltar a apresentar uma lâmina medíocre costuma confirmar o que já se sabia, ou baixá-lo.

Origami de Hon'ami Kōchū datado de Genroku 15 (1702), papel dobrado com caligrafia vertical que certifica um tantō de Yukimitsu, exposto em vitrina de museu junto à sua caixa de madeira.
Um origami real de 1702, de Hon'ami Kōchū, para um tantō de Yukimitsu: o modelo de parecer privado que precedeu o NBTHK em mais de dois séculos. Crédito: SLIMHANNYA · CC BY-SA · via Wikimedia Commons
Diagrama de um ninteisho antigo do NBTHK (1948-1982), com o nível, a data em era Shōwa e o selo de quem o examinou assinalados, com uma legenda da cor do papel de cada nível.
Um ninteisho anterior a 1982 (aqui, Tokubetsu Kichō, 特別貴重刀剣): o título do nível, a cor do papel e o selo de quem o examinou — delegação local ou sede central — são as pistas para o situar. Diagrama esquemático nosso. Diagrama: Kantei

Voltar a exame com um papel na mão

O regulamento de exame do NBTHK (審査規程, shinsa kitei), na revisão de 27 de março de 2023, em vigor desde 1 de abril, diz o que acontece ao papel que já se tem quando a lâmina volta a ser apresentada. O seu artigo 23, n.º 3: se for apresentada com o papel anterior (旧証書, kyū shōsho) e for aprovada, o NBTHK recolhe esse papel e entrega o novo. E se não for aprovada, os critérios de exame resolvem-no numa palavra, 現状 (genjō), «tal como está»: a lâmina fica como estava.

O artigo 30, n.º 2, traz uma cláusula que convém ler antes de apresentar o que quer que seja: o exame segue os critérios do próprio regulamento e não é uma avaliação comercial, e por isso o NBTHK não compensa os prejuízos comerciais, como uma descida do valor de mercado, que resultem dele. Quem volta a apresentar uma lâmina para subir de nível aceita que ela pode ficar igual, ou sair pior, sem que ninguém o ressarça.

O mesmo regulamento acrescenta três pontos práticos, úteis a quem examina através de um agente: o NBTHK pode reter a peça enquanto as taxas não forem pagas ou o papel anterior não for devolvido; se ninguém a levantar no prazo de um ano a contar do início das devoluções, deixa de responder pela sua guarda, e dois anos depois considera-a abandonada (artigo 31). E pode publicar na sua revista, em conferências e em exposições o que aprender com uma peça examinada, com as suas fotografias, mas não o nome nem a morada do dono sem a sua autorização (artigo 32).

Papéis de koshirae e de tōsōgu

Os mesmos quatro níveis existem para a montagem completa (tōsō, 刀装) e para as peças soltas (tōsōgu, 刀装具), julgadas à parte da lâmina. Uma peça bem documentada pode trazer três papéis: um da lâmina, um do koshirae e um da tsuba.

A ênfase muda. Nas peças: obras até Edo com assinatura correta, ou sem assinatura mas com época e escola identificáveis; de Meiji em diante, boa execução e bom estado; as peças fundidas posteriores a Meiji são rejeitadas; e no Tokubetsu Hozon pesam contra os restauros ou alterações visíveis, o polimento excessivo que apaga a cor do tempo e as assinaturas ilegíveis. Nas montagens: sem tsuba não há aprovação, salvo nos aikuchi; a falta de kozuka ou de kōgai é aceite e anotada; um entrançado refeito não desqualifica se harmonizar com o resto; e as montagens de fabrico estrangeiro não são examinadas.

Guarda tsuba de ferro, peça solta do tipo que também é apresentada ao shinsa em separado.
O tōsōgu —guardas, fuchi-kashira, menuki— recebe o seu próprio papel, independente do da lâmina. Crédito: The Metropolitan Museum of Art · CC0 · via Wikimedia Commons

Como se lê um papel

O certificado — kanteisho (鑑定書) em Hozon e Tokubetsu Hozon, shiteisho (指定書) em Jūyō e Tokubetsu Jūyō, e ninteisho (認定書) nos Kichō anteriores a 1982; por hábito chama-se-lhe também origami, embora em rigor esse nome seja o dos pareceres antigos — lê-se da direita para a esquerda e diz, em colunas: o tipo de peça e o comprimento da lâmina, a assinatura ou a atribuição, o nível concedido, a data do exame e o selo da sociedade. Traz anexa uma fotografia da espiga (nakago), e aí está a verificação que realmente importa: que aquela espiga, os seus orifícios e aquela assinatura sejam os da lâmina que se está a ver, e que o comprimento coincida com a medida real.

Dois avisos. O papel é da lâmina, não do conjunto: um Tokubetsu Hozon não diz absolutamente nada da montagem que a acompanha nem da qualidade do polimento atual. E a atribuição pode mudar ao subir de nível: uma lâmina sem assinatura atribuída a uma escola no Hozon pode receber outra atribuição no Tokubetsu Hozon.

Maquete de um kanteisho lido da direita para a esquerda, com cinco paragens numeradas e a fotografia da espiga anexada em baixo.
A ordem de leitura: tipo e nagasa, assinatura ou atribuição, nível, data do exame e selo; a fotografia da espiga é a verificação que realmente importa. Diagrama: Kantei

Como verificar um papel

Um papel verifica-se em duas direções distintas: que o papel em si seja autêntico, e que seja dessa lâmina. Confundir as duas perguntas é o erro mais caro.

Que o papel seja autêntico. O selo da associação vem em relevo, não impresso: nota-se ao passar o dedo por cima, e é a primeira coisa que verifica quem já viu centenas. O NBTHK mantém um registo (台帳, daichō) do que emite e consulta-o por telefone (台帳照会, daichō shōkai): basta dar o número do papel e a sua data de emissão. Para uma peça importante, levar a lâmina e o papel juntos à sede de Tóquio continua a ser a verificação definitiva. O registo acompanha o papel toda a vida: nos kanteisho e shiteisho que trazem no verso o nome do titular (名義, meigi), esse nome pode ser mudado; um papel deteriorado é substituído; e, se se perder um shiteisho, o NBTHK emite uma única vez um certificado substituto (指定証明書, shitei shōmeisho). Já apareceram falsificações até de Hozon e Tokubetsu Hozon, os níveis mais comuns, por isso a cautela não é só coisa dos papéis antigos. Quem lida com muitos papéis modernos do NBTHK aponta outros elementos de segurança: uma marca-d’água com o emblema da associação visível à transparência, kanji minúsculos quase da cor do papel, um padrão de furinhos diferente para Hozon e para Tokubetsu Hozon, e um tom de papel e de envelope próprio de cada nível. São verificações úteis, mas não substituem a consulta ao próprio NBTHK.

Que o papel seja dessa lâmina. É aqui que serve a fotografia ou o oshigata da espiga que acompanha o papel: há que comprovar, um por um, que o número de mekugi-ana coincide, que estão na mesma posição, que o yasurime é o mesmo e que a assinatura — se houver — se lê igual na foto e na lâmina real. O comprimento escrito no papel tem de coincidir com a nagasa medida na peça; se não coincidir, ou o papel não é dessa lâmina, ou a lâmina mudou desde o exame. Por convenção, além disso, a assinatura de um tachi e a de uma katana vão em faces opostas da espiga, por isso a face onde aparece o mei na foto também é um dado a verificar.

Um papel sem a lâmina ao lado, ou vendido à parte dela, é motivo para perguntar mais, não menos: o mercado internacional já viu papéis genuínos emparelhados com uma lâmina diferente da que certificaram. E convém não esquecer que um papel muda a atitude de quem olha para a lâmina, não a lâmina: esta continua a ser o que é.

Diagrama: à esquerda, a foto da espiga no papel; à direita, a espiga real; ambas com quatro marcas numeradas no mekugi-ana, na limagem, na assinatura e no comprimento.
Cotejar o papel com a lâmina: o número e a posição dos mekugi-ana (1), o yasurime (2), a assinatura (3) e o comprimento (4) têm de coincidir na foto e na peça. Diagrama esquemático nosso. Diagrama: Kantei

Outros emissores e outros documentos

O NBTHK e as duas NTHK não são os únicos a pôr um juízo por escrito, e convém saber que documento se tem à frente.

  • Nihontō Bunka Shinkō Kyōkai (日本刀文化振興協会): fundou-a em 2008 uma parte do NBTHK que se separou dele. Não avalia lâminas antigas: emite certificados de obra nova para espadas de ferreiros atuais e organiza exposições dos ofícios da espada.
  • Nihon Katchū Bugu Kenkyū Hozonkai (日本甲冑武具研究保存会): as armaduras e os demais apetrechos não os julga o NBTHK, mas esta sociedade, com a sua própria escala de cinco graus.
  • Sociedades inventadas: circulam papéis de aspeto oficial em nome de organizações japonesas que não existem, feitos para dar a uma lâmina uma aparência de legitimidade. Se o emissor não é um dos conhecidos, o papel não comprova nada.
  • Sayagaki (鞘書): a atribuição que um perito escreve a tinta sobre a shirasaya. É uma opinião assinada, não um papel. Já em 1956 o perito Satō Kanzan (佐藤寒山, 1907–1978) avisou de que circulavam sayagaki falsos com o seu nome e pediu que se comprasse olhando para a lâmina e para a assinatura, não para a bainha.

Como se forma o juízo que acaba em qualquer destes documentos, e o que a espiga conta além da assinatura, está em «Kantei: como se olha para uma lâmina».

O que significa cada nível para o valor

O papel não fixa um preço: certifica o julgamento de um júri numa data concreta, e é o mercado que decide quanto pagar por ele. Ainda assim, o nível condiciona o valor de forma bastante constante, porque condiciona a raridade.

O calendário já o antecipa: Hozon e Tokubetsu Hozon examinam-se quatro vezes por ano; Jūyō, uma vez; Tokubetsu Jūyō, uma vez a cada dois anos, e só entre o que já tem Jūyō. Cada degrau filtra o anterior, por isso a população se estreita depressa. Segundo números publicados por ocasião do cinquentenário do sistema de Tokubetsu Jūyō, em 2021 havia 1.143 lâminas com essa designação, contra as dezenas de milhares que têm Hozon ou Tokubetsu Hozon: a diferença de raridade entre um nível e o seguinte não é gradual, é de outra ordem de grandeza, e o mercado reflete-o no preço mais do que em qualquer outro dado da ficha.

O diagrama ao lado numera a cadência de shinsa de cada nível e os extremos de raridade:

  1. Hozon: quatro shinsa por ano.
  2. Tokubetsu Hozon: quatro shinsa por ano, apenas sobre o que já tem Hozon.
  3. Jūyō: um shinsa por ano, apenas sobre o que já tem Tokubetsu Hozon.
  4. Tokubetsu Jūyō: um shinsa a cada dois anos, apenas sobre o que já tem Jūyō.
  5. Base da pirâmide: o nível mais frequente.
  6. Topo da pirâmide: o nível mais raro.

Dito isto, cada nível desempenha um papel diferente:

  • Hozon é o limiar que separa uma lâmina de coleção séria de uma por estudar: certifica que a assinatura ou a atribuição se sustentam, não que a peça seja excecional. É, de longe, o papel mais comum, e o primeiro que qualquer comprador sério pede.
  • Tokubetsu Hozon distingue, dentro do já aprovado, a melhor execução e o melhor estado; na prática é o nível mais negociado entre colecionadores, porque combina disponibilidade relativa com qualidade já filtrada.
  • Jūyō é o salto real: uma única sessão por ano, só sobre o que já passou Tokubetsu Hozon, e um critério comparado ao de um Objeto de Arte Importante reconhecido pelo Estado. O mercado internacional trata a linha entre Tokubetsu Hozon e Jūyō como a que separa uma boa lâmina de uma lâmina importante.
  • Tokubetsu Jūyō é a exceção dentro da exceção: mil cento e quarenta e três lâminas em toda a história do nível, à data de 2021. Um papel deste patamar aproxima-se, no trato e no preço, do de um Bem Cultural Importante.

Dois avisos para não ler o nível como se fosse o preço. Primeiro, o papel julga a lâmina, não o conjunto: uma Tokubetsu Hozon com um polimento gasto ou uma montagem pobre vale menos do que outra do mesmo nível bem conservada, e o papel não o diz. Segundo, o nível não é definitivo: uma lâmina pode voltar a ser apresentada anos depois e subir, se a investigação sobre a sua escola ou o seu ferreiro tiver avançado, ou ficar onde estava se não passar — recorde-se a regra do genjō. E entre NBTHK e NTHK, embora ambos sejam sérios, o mercado internacional calibra os seus preços pelos números do NBTHK; um papel do NTHK não se traduz sem mais num nível equivalente do NBTHK.

Diagrama em forma de pirâmide com os quatro níveis do NBTHK — Hozon, Tokubetsu Hozon, Jūyō e Tokubetsu Jūyō —, do mais frequente e numeroso ao mais raro e seletivo, com a cadência de shinsa de cada um.
Cada nível exige o anterior e examina-se com menos frequência: de quatro sessões por ano em Hozon a uma a cada dois anos em Tokubetsu Jūyō. A raridade — e com ela o valor — cresce igualmente depressa. Diagrama: Kantei

O tōrokushō não é um certificado de autenticidade

O tōrokushō (銃砲刀剣類登録証, jūhō tōkenrui tōrokushō) é a inscrição exigida pela lei japonesa de armas de fogo e espadas, de 1958. É emitido pela direção de educação da prefeitura em sessões mensais de registo, acompanha a lâmina enquanto esta permanecer no Japão e obriga a comunicar a mudança de proprietário em vinte dias. Está registada a lâmina, não o seu dono.

O que anota é o comprimento, a curvatura, o número de mekugi-ana e o que diz a assinatura. Não julga se essa assinatura é autêntica, nem a qualidade, nem a época. Confundi-lo com um papel de autenticidade é o erro mais repetido de quem compra pela primeira vez, e nas fichas japonesas aparece muitas vezes como «registo japonês incluído».

Ao exportar, o tōrokushō é devolvido e a Agência de Assuntos Culturais (文化庁, Bunkachō) emite no seu lugar um certificado de inspeção para a exportação de antiguidades (古美術品輸出鑑査証明, ko-bijutsuhin yushutsu kansa shōmei). As peças declaradas Bem Cultural Importante ou Tesouro Nacional não podem sair do Japão. Por isso uma lâmina que chega legalmente à Europa vem sem tōrokushō: a sua ausência não diz nada, nem bom nem mau, sobre a peça.

O papel do NBTHK deixa anotado o tōrokushō com que a lâmina foi apresentada: a prefeitura, o número e a data (ver acima a anatomia de um papel moderno). Se depois o registo da lâmina mudar, o NBTHK corrige esse dado no papel a pedido do dono (登録証変更, tōrokushō henkō). Numa lâmina exportada, o registo que figura no papel é o que foi devolvido à saída do Japão: é normal que não coincida com nenhum documento em vigor.

Maquete de um cartão de registo com os campos comprimento, curvatura, número de mekugi-ana e assinatura, com uma marca indicando que não certifica autenticidade.
O tōrokushō regista estes quatro dados; não diz se a assinatura é autêntica. Diagrama: Kantei

O NBTHK na Europa

Fora do Japão, o NBTHK tem um ramo europeu, o NBTHK-EB (European Branch), e outro americano, o NBTHK-AB. O europeu reúne colecionadores e estudiosos em encontros periódicos por vários países da Europa, com cursos, conferências, exercícios de kantei e estudo em mão de lâminas importantes, e traduz para inglês partes da revista Tōken Bijutsu. Parte da mesma ideia da casa-mãe: o que se conserva são obras de arte históricas, não armas, e o valor de uma lâmina está na harmonia do seu aço, da sua forma, do seu hada e do seu hamon, algo que só se aprende vendo muitas lâminas boas e lendo os especialistas. Para quem começa na Europa, é o sítio natural onde aprender a olhar.